Seu corpo estava leve, letárgico, quase adormecido e eis que veio a lembrança, fora levada à outro lugar, outro mundo, outros tempos, séculos atrás.
Uma mulher desesperada, com uma criança em seus braços corria desesperadamente entre as árvores, corria pela vida, não tanto pela sua, mas por aquela que carregava, por sua filha.
No alto daquela colina, junto à um precipício viu uma fumaça, já era dia e provavelmente estava exausta, ao longe podia ouvir o ladrar dos cães e sabia que a caça era ela.
A casa era rústica, de madeira pura, colhida ali mesmo, feita pelo próprio morador, mas porque morar tão isolado do restante da vila? essa resposta não lhe cabia, apenas viu naquela casa, naquele homem a salvação da vida daquele bebê tão amado que carregava nos braços, por vezes parecia que não era sua filha, mas sua protegida.
Talvez ali vivesse um curandeiro já que eles se afastavam mesmo dos lugares mais povoados, viviam isolados e em contato direto com a natureza para aprender o máximo que pudessem.
Quando viu o homem sentiu e soube que ele cuidaria da criança, entregou-a em seus braços, ainda com a respiração ofegante e sem muitas explicações.
Continuou correndo, agora para despistar os seus caçadores da tal casa na colina, do tal curandeiro, bruxo, ou seja lá o que aquele homem era.
Seus executores passaram pela casa e nem se quer ousaram buscar, pois sabiam que ali, quem morava, em hipóteses nenhuma esconderia uma pessoa ou muito menos uma criança, não era de seu feitio e muito menos de suas funções. Mal sabiam eles que aquele Homem quebraria o paradigma de tudo o que aparentavam suas gerações, porque no fundo de seu espírito, ao segurar aquela criança, ele soube o verdadeiro motivo de tantos segredos, mistérios e conhecimento.
A menina cresceu, adorava correr numa espécie de varanda no piso superior daquela casa, aprendeu sobre as ervas, sobre os animais, soube ler as estrelas e ali iniciou sua senda, sua senda que duraria tantas incontáveis vidas. E o homem? este tornou-se uma espécie de guardião, encontraram-se muitas outras vezes e como uma espécie de gratidão o Universo permitiu que se lembrassem um do outro, naquela, noutras que se seguiram, nesta e em tantas outras vidas que se passaram e ainda se passarão.
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